Primeiros Encontros
4 de novembro de 2008
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, como a Epifania,
No mundo inteiro, nós dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até seu domínio,
No outro lado, para além do espelho.
*
Quando chegava a noite eu conseguia a graça,
Os portões do altar se escancaravam,
E nossa nudez brilhava na escuridão
Que caía vagarosa. E ao despertar
Eu dizia: "Abençoada sejas!"
E sabia que minha bênção era impertinente:
Dormias, os lilases estendiam-se da mesa
Para tocar tuas pálpebras com um universo de azul,
E tu recebias o toque sobre as pálpebras,
E elas permaneciam imóveis, e tua mão ainda estava quente.
*
E tu seguravas uma esfera de cristal nas mãos,
Sentada num trono ainda adormecida,
E - deus do céu! - tu me pertencias.
Acordavas e transfiguravas
As palavras que as pessoas pronunciavam todos os dias,
E a fala enchia-se até transbordar
de poder ressonante, e a palavra "tu"
Descobria seu novo significado: "rei".
Objetos comuns transfiguravam-se imediatamente,
Tudo - o jarro, a bacia - quando,
Entre nós como uma sentinela,
Era colocada a água, laminar e firme.
*
Éramos conduzidos, sem saber para onde;
Como miragens, diante de nós recuavam
Cidades construídas por milagre,
Havia hortelã silvestre sob nossos pés,
Pássaros faziam a mesma rota que nós,
E no rio os peixes nadavam correnteza acima,
E o céu se desenrolava diante de nossos olhos.
*
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.
[Arseni(y) Tarkovski]


Comentário por Gois — 6 de novembro de 2008 (13:39)
Cê curte mesmo essas coisas com ’ski no final…
Leminski, Nijinski, Takovski, WHI’SKI’